segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"Os cães de Babel", de Carolyn Parkhurst

Demoro sempre imenso tempo a escolher um livro. No dia em que comprei este livro, não foi diferente: tive mais de meia hora com dois livros na mão a tentar escolher qual levar. Quando, finalmente, me levanto ainda indecisa para ir pôr um livro de volta à prateleira e levar o outro reparei neste livro. Parei, li a contracapa e uma página ao acaso ainda duvidei mas acabei por pegar nele, esquecer-me dos outros dois livros ali mesmo e ir pagar. Não me arrependo.


"Isto é o que sabemos, aqueles de nós que podem falar para contar a história: Lexy não saltou. Os ferimentos que sofreu na queda, a maneira como os seus ossos quebraram e os danos provocados aos órgãos, o derrame fortuito do sangue na terra, disseram-nos isso. Mas talvez, e é aqui que sinto faltar-me a respiração, talvez ela se tenha deixado cair. Ela tinha a escolha do dia, e talvez naquele momento no cimo da árvore, ao olhar para baixo e ver o jardim, o mundo, a sua vida, estendidos por baixo dela, talvez tenha escolhido mergulhar neles de cabeça. Talvez tenha visto diante de si uma vida inteira a caminhar pela terra em ruínas e tenha escolhido antes um único momento no ar."

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A moeda

"Repara bem. A vida olhada como uma moeda. Nada de mais redondo, conclusivo, perfeito. Simétrico.
Olha pois. Amacia-a entre os dedos, sente-lhe o peso, avalia as possibilidades.
Escolhe uma face ou deixa que uma face te escolha.

Olha pois. E de um lado tens."

in "A casa quieta", Rodrigues Guedes de Carvalho

E cai com estrondo a moeda na mesa. Gira sobre si própria. Rebola para longe. Vai mostrando ora uma face ora outra. Mais uma vez gira sobre si própria. Anda mais um pouco. Rebola. Uma face. A outra. E eis que nem uma nem outra. Fica a moeda erguida de lado.
Mas ainda balança! Talvez caía para um lado. Ou talvez para o outro. Não. Perde-se o balanço. Mantém-se erguida de lado a moeda imóvel. Nem dá para perceber assim que valor tem. A moeda sou eu.

sábado, 10 de outubro de 2009



Spend all your time waiting
for that second chance
for a break that would make it okay
there's always some reason
to feel not good enough
and it's hard at the end of the day
I need some distraction
oh beautiful release
memories seep from my veins
let me be empty
oh and weightless and maybe
I'll find some peace tonight

In the arms of the angel
fly away from here
from this dark cold hotel room
and the endlessness that you fear
you are pulled from the wreckage
of your silent reverie
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here

So tired of the straight line
and everywhere you turn
there's vultures and thieves at your back
and the storm keeps on twisting
you keep on building the lines
that you make up for all that you lack
it doesn't make no difference
escaping one last time
it's easier to believe in this sweet madness oh
this glorious sadness that brings me to my knees

In the arms of the angel
fly away from here
from this dark cold hotel room
and the endlessness that you fear
you are pulled from the wreckage
of your silent reverie
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here

Acho que esta música está agora sempre a passar em todas as rádios. Não gosto dessas músicas, tornam-se banais ao perderem a sua magia no ouvido de toda a gente e nos comentários do youtube. Por isso, esta noite sou dona de uma música...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lápis de bico partido

Não me falta o que dizer. Falta-me o como. A indefinição chega a este extremo. Raramente digo o que não quero, escolho é formas erradas de o dizer. Erros de expressão. Agora contagiam também aquilo que escrevo. Ou tento escrever. Meias frases com um risco em cima não contam.
Também não me consigo encontrar nas frases dos outros. Amontoam-se pelo quarto livros marcados com passagens que podiam ser minhas (mas não são que não tenho talento para isso). E em nenhuma delas me consigo rever agora...
Suspiro fundo como se pudesse expulsar toda esta indefinição de mim. Acabo de riscar o papel, deixo cair o lápis de bico partido. Agora deu-me para querer não pensar. Passei à fase do "Há coisas que não posso mudar, logo, não vale a pena pensar nisso".
Fiz a escolha mais importante da minha vida apesar de ninguém ter dado por isso. Eu dou pelo preço todos os dias. Foi a minha escolha. Não vale pensar mais nisso.
O mundo é injusto, sim. Mas um dia podia decidir ser injusto a meu valor, sim. E oiço, todos os dias, pessoas queixarem-se da sorte que eu invejo para mim, sim. Não vale a pena pensar nisso.

E depois há pessoas que, um dia, simplesmente, desaparecem na nossa vida por razões que nunca vamos chegar a compreender por muito que tentemos (e eu tento). Aceita-se. Grandes amizades não se imploram (e acho que as pequenas também não). Não vale a pensar mais nisso.
Às vezes, o "Não vale a pena pensar mais nisso." é uma forma de sobrevivência, não de birra.
Inspiro. Expiro. E não quero saber se vivo ou existo.
(Lá está, não penso nisso.)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Regresso à Terra do Nunca

"Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço."
Mia Couto, poema "Fundo do Mar", 1981

Talvez exista um lugar assim para toda a gente. Só que ainda não encontrei o meu. Nem a minha a luz nem o meu mundo.
Assim, por agora, limito-me a regressar a um lugar onde posso deixar de pensar nisso.
my neverland

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Talvez este fosse um daqueles dias...

Talvez este fosse um daqueles dias em que ia passar a tarde toda a cuidar de mim. Em que perderia tempo a pensar no verniz que ia usar. Em que ia constatar que, de facto, a minha pele já teve melhores dias. E já agora o meu cabelo também. Em que iria estender o meu guarda-roupa todo em cima da cama, mexer em tudo, conjugar tudo, desfazer tudo, suspirar que "não tenho nada de jeito para vestir", remexer tudo outra vez, experimentar umas quantas coisas, juntar os acessórios à equação, voltar a suspirar e, por fim, lá escolher o que levar mais por exaustão do que por certeza. Depois ia tomar um daqueles banhos que insultariam qualquer ambientalista para depois passar à fase dos cremes, do vestir, do maquilhar, do pentear e do observar o resultado.
Afinal é uma ocasião especial. O reencontro com alguns dos meus "amigos-barra-colegas" do secundário. Ainda nem um ano se passou mas esse tempo soa-me a anos. Como se fosse um daqueles reencontros de colegas de escola que não se vêem a 20 anos. Afinal, já não estudamos as mesmas coisas, não temos os meus horários, os mesmos problemas, os mesmos "colegas-barra-amigos". As nossas vidas já não são iguais: temos de ter mudado. Temos necessariamente de parecer diferentes do que éramos há um ano atrás. E eu sei que eles me vão parecer diferentes: grandes, adultos, vividos. Na forma de vestir talvez, numa ligeira mudança da forma como falam, dos assuntos porque também não haverá tempo para muito mais. Se quisesse, se tivesse perdido a tal tarde a cuidar de mim, talvez também parecesse assim: grande, adulta, vivida. Não, é mentira. Nem a mim me conseguiria enganar. Iria sempre parecer igual. Porque as diferenças mesmo que as houvesse não seriam aos olhos deles...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A vida (que) não se perdeu

Podia ter escolhido continuar com o negócio de família. Ter uma vida próspera e sossegada. Mas não. Raul Solnado escolheu ser actor. Escolheu o caminho mais inesperado, mais arriscado, mais difícil e com ele revelou ao mundo o seu dom para fazer rir sem insensibilidades ou obscenidades, inovar sem nunca perder o conteúdo ou recorrer à piada fácil e mostrar que a comédia é, de facto, o discurso mais poderoso do mundo...
Foi todo um universo criativo que nos deixou, mas também uma vida que não se perdeu num caminho mais fácil. Também gostava de, um dia, escrever a minha autografia (mesmo que apenas imaginária) e dar-lhe exactamente o mesmo título que a deste grande senhor "A vida não se perdeu". Quem não gostaria? Ter a certeza, na velhice, que aplicámos cada gota de suor e lágrimas, cada centelha de força de vontade àquilo que realmente gostamos e naquilo em que somos realmente bons. E saber que podemos continuar a sonhar mas é a força do hábito, os maiores sonhos foram sonhados, vividos e agora lembrados com um sorriso doce nos lábios.
Acho que não devia haver só tristeza na sua morte mas também alegria porque ele conseguiu tudo isso. Raul Solnado pode agora ser lembrado como o maior comediante português de sempre, mas também foi um homem que arriscou, conseguiu alcançar os seus sonhos e com ele incentivou todos os outros a fazerem o mesmo : "Façam o favor de ser felizes!"

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