sábado, 7 de março de 2009

Just imagine

"A arte não reproduz o que vemos. Ela faz-nos ver." (Paul Klee)

Ver como tudo muda, tudo se transforma sem querermos nada, sem fazermos nada, sem vermos nada. Só quando se levanta os olhos do bico do sapato é que se dá pela mudança de paisagem... Para, logo depois, os grãos de areia voltarem a escorregar de novo das mãos secas como o deserto enquanto os seus irmãos continuam a cair invarialmente no fundo da ampulheta. Uma nova paisagem. Artista anonimamente desconhecido (ou talvez não...). Que sejamos os artistas das nossas próprias paisagens! Ou, pelo menos, "just imagine"...


Ilana Yahav é uma das artistas mais conhecidas na arte de "sand animation". Utiliza apenas os seus dedos para desenhar com areia numa mesa de vidro. Este é apenas um dos seus trabalhos chamado de "Just imagine".

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um dia que parecia de Verão


Num dia que parecia de Verão. Pelo murmúrio leve das famílias e dos casais de namorados. Pela pedra quente onde estava deitada. Pelas ondas brandas da baixa-mar. Pelo cheiro a musgo e a mar. Pelas gaivotas a dançarem no céu azul.


Eis em mim absorto
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.

Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.

Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.

E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.

Fernando Pessoa

E, naquele momento, consegui. Mas momentos destes fogem-me como areia por entre os dedos... E um dia de Verão não põe fim ao Inverno de mim.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Flores

Tenho uma prima que é florista e houve um ano que tive que ir ajudá-la no dia de São Valentim. Antes da loja abrir já havia uma fila de 8 homens em frente à loja. Eram todos novos. Bem-vestidos. Perfumados. Alguns roíam as unhas. Outros ajeitavam a roupa. São os Ansiosos.
- Bom dia.
- Bom dia. O que vai…
- Eu queria um ramo de flores, rosas, umas 7 ou 8 não sei, vermelhas.
- Ok. Espere só um bocadinho.
- Mas eu queria também aqueles raminhos verdes, e aquela coisa…o embrulho… à volta, sabe? - Sim, sim não se preocupe.
- E queria também um daqueles cartõezinhos.
- Estão aí ao seu lado. Pode escolher um.
A minha prima faz o ramo. Mistura as rosas com os ramos. Põe o embrulho e os laços. Borrifa-as. Dá-lhes o jeitinho final.
-Olhe, desculpe! Afinal… não pode mudar as rosas? Eu acho que afinal ela gosta mais de rosas amarelas…

À noite vêm os mais velhos. Homens de fato e gravata que consultam o relógio vezes sem conta. Carro estacionado em 2ª fila. São os Desesperados.
- Boa n…
- Boa noite. Olhe, eu queria uma flor, se faz favor.

- E que flor vai querer? - Ah, pode ser uma rosa.
- E de que cor? Já não temos rosas vermelhas...
- Eh pah… Branca, rosa…Não sei escolha a menina.
- E quer que faça ramo? -Isso vai demorar muito?
- Não, não é rápido. - Então… sim, pode ser...
Eram 21h30 quando fechámos a loja. A minha prima comentava enquanto fechava a caixa que tinha vendido num só dia muito mais do costumava vender numa semana. Quando estávamos a acabar de varrer o chão bate à porta o antigo proprietário da loja, o senhor Joaquim. Tem quase 90 anos e apesar de já não trabalhar na loja há algum tempo, todos os dias, antes da loja fechar, passa por ali.
- Então, senhor Joaquim, vem buscar uma rosa para à dona Engracia?
- Não, não! Vim só ver se as meninas tinham conseguido dar hoje conta do recado. Apesar de flores não serem presente para se dar a ninguém num dia como este…
- Não?
- Claro que não, menina! Olhe, toda a minha vida vendi flores. O meu pai também era florista, sabe? Ainda não tinha 7 anos quando comecei a vender flores na rua. Acho que as flores são muito bonitas para enfeitar uma casa mas não para oferecer à nossa companheira…
- Então, mas porquê, senhor Joaquim?
- Porque murcham, menina... E o que é que tem de romântico oferecer a alguém, como prova do nosso amor, algo que é muito bonito ao início mas ao fim de uns poucos dias perde a cor, as pétalas caem uma a uma até que acaba por se desfazer e ter de se mandar para o lixo?


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Músicas contadoras de histórias 2

Putos a roubar maçãs


Ritmo monótono. Dedilham-se as cordas da guitarra.
Final de tarde. As janelas do prédio em frente reflectem um sol vermelho em rota descendente. Ele começa arrumar os papéis em cima da mesa. Agrafa-os uns aos outros, nuns quantos mete clips, faz pequenos montinhos que arruma em gavetas, pastas ou dossiers. Atira as aparas de borracha para o lixo. Arruma os lápis e canetas na gaveta. Gestos automáticos, mecânicos, entediantes. Finalmente, volta a sentar-se para desligar o computador mais o seu barulho monótono. Entretanto olha para as molduras ao lado do monitor. A filha e agora ex-mulher. Os pais em frente à sua velha casa na terra dos pomares.

Breve pausa na música. O suspense de uma velha memória...
A terra dos pomares. A terra da sua infância. Recomeça o guitarra. E entra o poderoso violoncelo. Cada nota são flashes de memórias julgadas perdidas há muito. Os pomares de maçãs a perder de vista. O barulho dos pardais nas árvores. Os muros de pedras redondas. O cheiro a terra molhada. Os amigos. Os finais de tarde vindos da escola pela estrada de terra. O jogo.

O violoncelo impõem-se. O ritmo cresce!
Ele quase que consegue sentir o esforço do seu corpo ao subir a árvore. E ouvir os gritos de regozijo cada vez que apanhava uma maçã e acenava com ela aos amigos, lá bem no alto, por entre os ramos da árvore. Depos descia com as maçãs nos bolsos. E o jogo recomeçava. Iam de árvore em árvore num corrida desenfreada enfiando as maçãs nos bolsos, no cinto, na mochila. Consegue quase a ouvir o som dos sapatos a bater na terra, o ladrar dos cães que não tardavam a aparecer. Os gritos enfurecidos dos donos atrás deles de pá ou foice na mão. Era tempo de saltar o muro e passar ao pomar seguinte.

O violoncelo e o violino cessam por fim. Agora, apenas a guitarra se faz ouvir.
E terminavam no fundo da estrada arranhados, ofegantes, sujos, estendendo-se na terra e sorrindo para o céu poente. Logo se endireitavam, ainda de respiração descontrolada, para contarem as maçãs roubadas por cada um e elegerem o justo vencedor. E, por fim, cansados e felizes, só se ouvia o trincar das maçãs suculentas e ainda mais deliciosas.

E voltam o violino e o vioncelo.

Todas notas se misturam no rodopio das velhas memórias e no vácuo do regresso à inevitável realidade.
O computador já se desligou. Os vidros do prédio da frente estão escuros em vez de vermelhos quando ele corre as persianas as persianas.

O violoncelo e o violino despedem-se. Últimas notas da guitarra.
Apaga as luzes. Fecha a porta do escritório atrás de si. A do tempo dos putos a roubar maçãs já se fechou há muito...

sábado, 31 de janeiro de 2009

Momentos Nicola (ou algo mais)

29/01/09
Adoro café. Não o tomo para despertar até porque nunca notei qualquer efeito em mim mas apenas pelo seu sabor. Gostos não se discutem e sabores não se explicam. Mas mesmo quem simplesmente odeia café de certeza que já reparou que, desde algum tempo, os pacotes de açúcar de quase todas as marcas tem umas certas frases num dos lados. Não vou dizer que elas sao filosóficas, poéticas, inspiradoras, profundas, românticas, palermas, lamechas, ridículas ou simplesmente uma boa ideia de marketing. Isso depende da forma como está a ser (ou não) saboreado o café. E mais uma vez sabores não se explicam...
Mas independetemente disso a verdade é que estas frases não deixam ninguém indiferente. E isso é algo que acontece poucas vezes seja em relação aquilo que for...
Para mim são breves momentos de lucidez. Momentos em que eu me ajusto à frase. Ou simplesmente deixo que ela se ajuste a mim. Ajusto-me. Hoje entre a multidão eufórica da primeira fase de exames terminada. Entre as malas daqueles que voltam para a terra. Entre os outros que não sabem o que isso é. E todos na ansia das datas, dos números, do "reprovado" e do "aprovado". Toda a gente fala. Ninguém se ouve.Telemóveis na mão. Dedos a velocidade da luz. Contágio de receios, ansias e preocupações. Levo a mão ao bolso do casaco talvez a procura do meu também e dele tiro isto:


O meu momento de lucidez. O meu momento café Nicola (ou algo mais) que vai aparecendo nas mais diversas formas. Hoje apareceu assim... Talvez seja um bom começo embora não saiba para o quê. Desapareceu a lucidez. Desapareceu o momento Nicola (ou algo mais). Resta o registo a partir de agora.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Músicas contadoras de histórias 1

"Durante uma semana, todos os dias, sofrendo o vento e a chuva pelos caminhos alagados de S. Sebastião da Pedreira, o músico foi tocar duas, três horas, até que Blimunda teve forças para levantar-se, sentava-se ao pé do cravo, pálida ainda, rodeada de música como se mergulhasse por um profundo mar, diremos nós, que ela por aí nunca navegou, o seu naufrágio foi outro. Depois a saúde voltou depressa, se realmente faltara."
in "Memorial do Convento" de José Saramago

Às vezes o que me falta é apenas um mar profundo onde possa mergulhar. Onde seja livre de voar ao sabor das ondas. E flutuar com as gaivotas a esvoaçarem lá muito em cima no céu. Livre das âncoras do passado. Livre das minhas histórias mais os seus naufrágios. O meu mar. As minhas histórias. Às vezes eu quero outro mar. Outras histórias. E há musicas que são simplesmente de outro mundo. Há músicas excelentes contadoras de histórias.


As marionetas


Fragmagens - Donna Maria


Esta música lembra-me um filme. As notas do piano, logo no ínicio, parecem indicar que será um filme triste.
Mas depois há uma mudança súbita de ritmo. Dá-se ínico, então, à história.
E entra o violino. O instrumento mágico. E a conjugação dos dois instrumentos é a banda sonora perfeita de um filme de marionetas. Cada nota ritimada do piano é um puxar dos cordões que movem as marionetas. Invisíveis. Cada nota mágica do violino dá acção à história. E as marionetas movem-se, gesticulam, falam na tela do cinema. Sucedem-se as acções. As histórias. Os acontecimentos. As pessoas. As emoções. Os sentimentos. Numa roda-vida de movimentos repetitivos, calculados, planeados, estudados em camâra rápida.
Mas eis que as notas do piano e do violino se alteram. E o ritmo também. Talvez os cordões nao sejam assim tao invisiveis! Talvez as marionetas possam, um dia, ter vontade própria..
Suspense.
As notas do violino tornam-se mais mágicas, mais agudas, mais delicadas, mas profundas...Mais cortantes pelo peso da consciencia.
No final, volta o piano. O filme acaba.
Passam os créditos finais.
As marionetas de fios invisiveis continuam marionetas.
Jazem caídas no palco.
Por hoje a
cabou-se o espectáculo.
Fundo preto.

sábado, 10 de janeiro de 2009

(Falta de) Liberdade

Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada
O sol doira
Sem literarura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente natinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma
[...]
Fernando Pessoa

Com 12 capitulos, 256 páginas, dezenas de gráficos, esquemas e fórmulas geométricas de outros tantos compostos e um exame na terça-feira seguidos de outros 7 em 3 semanas(no mínimo, isto é, se não chumbar a nenhum, claro...) este poema não é propriamente aquele que deveria pairar na minha cabeça neste momento. Mas, enquanto as famílias, funções, constituição e carga eléctrica da fosfatidiletanolamina, fosfatioilinositol, fosfatidilserina, fosfatidilglicerol e afins me bailam diante dos olhos, não deixo de pensar o quanto este poema pode ser verdadeiro...
Mas também nunca ninguém disse o que é verdadeiro é o que está certo. Nem que, às vezes, o cinzento apaga a luz de todas as outras cores além de ser das cores mais difícieis de apagar. E os sonhos têm também o seu lado cinzento...