sexta-feira, 24 de abril de 2009

Wrong

"Talvez a felicidade seja isto : não sentirmos que devíamos estar noutro lugar, a fazer outra coisa, sendo outra pessoa." Eric Weiner

Talvez a felicidade seja o contrário do meu estado de espírito. No dia de hoje que não foi mau e também não foi bom. Foi apenas mais um dia demasiado parecido com os outros. Em que disse os bons-dias com um sorriso, em que conversei, em que contei piadas e em que me ri das piadas dos outros. Tal como em todos os outros dias. Como pessoa bem-disposta que sou tida em conta por alguns, os que me rodeiam durante o dia.
Resta a irrealidade de tudo isto. A confusão dos pensamentos. O descoordenamento da indefinição. O sufoco da passagem do tempo não aproveitado. O cansaço da luta de todos os dias.
E a escrita patética supostamente compensada por um letra de uma música.
Resto eu. Mentira. Resta tudo aquilo que eu não consigo ser para além de uma mistura infinita de Erros.


Wrong (Radio Version) - Depeche_Mode

I was born with the wrong sign
In the wrong house
With the wrong ascendancy
I took the wrong road
That led to the wrong tendencies
I was in the wrong place at the wrong time
For the wrong reason and the wrong rhyme
On the wrong day of the wrong week
I used the wrong method with the wrong technique
Wrong
Wrong

There's something wrong with me
Cannot be something wrong with me
Inherently
The wrong mix in the wrong genes
I reached the wrong ends by the wrong means
It was the wrong plan
In the wrong hands
With the wrong theory for the wrong man
The wrong lies, on the wrong vibes
The wrong questions with the wrong replies
Wrong
Wrong

I was marching to the wrong drum
With the wrong scum
Pissing out the wrong energy
Using all the wrong lines
And the wrong signs
With the wrong intensity
I was on the wrong page of the wrong book
With the wrong rendition of the wrong hook
Made the wrong move, every wrong night
With the wrong tune played till it sounded right yah
Wrong
Wrong
Wrong

I was born with the wrong sign
In the wrong house
With the wrong ascendancy
I took the wrong road
That led to the wrong tendencies
I was in the wrong place at the wrong time
For the wrong reason and the wrong rhyme
On the wrong day of the wrong week
I used the wrong method with the wrong technique

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A praia da fotografia

Praia das Maçãs - 11/04/09


Em cima de um móvel da minha casa de jantar está, desde que me lembro, uma foto muito parecida com esta. Foi tirada neste exacto local. Durante a baixa-mar a avaliar pela espuma das ondas e as marcas na areia. Possivelmente na mesma altura do dia pela posição do sol escondido entre as nuvens cinzentas. E num dia igualmente frio e ventoso a avaliar pelo kispo vermelho da criança que sorri e acena com uma mão suja de areia bem no meio da fotografia.

Não sei que idade tinha na altura. Talvez 4, 5 anos... Usei aquele kispo tantos anos... Tinha montes de bolsos de onde tirava as mais diversas coisas como molas, pedras, brindes dos ovos Kinder e até caracóis. Na foto ainda me dava por depois do joelho. Quando o deixei de usar dava-me pela cintura. Ainda usava franja também. E o cabelo certinho pelo ombro que me esvoaçava pela cara ao sabor do vento. E tinha aquele sorriso. Não era bonito nem feio. Era um sorriso de quem fica feliz só por correr na areia e não se importa de ficar mal na fotografia...

Quando era pequena tinha o hábito de me imaginar quando fosse grande. Passava horas a imaginar como seria o meu aspecto, as minhas roupas, o meu quarto. Inventava nomes para o meu namorado, para os meus amigos, para os meus colegas. Criava situações do meu dia-a-dia desde as mais alegres até aos problemas mais complicados de resolver. Quando fosse grande.

Agora, 14 anos depois, já não sou pequena. Mas também não sei se sou grande.. Sei que já não tenho aquele kispo mas um casaco. E que em vez dos brindes dos ovos Kinder e dos caracóis nos bolsos agora tenho o telemóvel e o mp3. Também já não tenho a franja nem o cabelo certinho pelo ombro. E já não fico feliz só por correr na areia nem sorrio muito para as fotos com medo de ficar mal nas fotografias. Ou simplesmente não apareço nelas como é o caso...
Fica a praia que parece exactamente igual aquilo que era há 14 anos. Haja algo que não mude com o tempo...

terça-feira, 31 de março de 2009

(Falta de) Sorte


- "E agora, senhores alunos, temos os trevos. Existem diversas espécies de trevos mas todas elas pertencem ao género Trifolium. As mais abundantes vão ter de saber identificar. Um dos mais comuns em Portugal é o Trifolium repels. Já toda a gente o viu de certeza... É aquele que se diz que dá sorte..."

Sorte. Sorte era não estar fechada nesta sala de aula nos primeiros dias da Primavera. Sorte era ela esbarrar com ele naquela esquina ao pé das escadas. Ela a descê-las para depois virar à direita. Ele a virar à esquerda para depois as subir. Os dois com pressa. A dobrar a esquina. No mesmo instante. Sorte era o encontr(ã)o inevitável.

Sorte. Sorte era terem os mesmos horários. Quase todas as manhãs, encontrar-se-iam no autocarro. Ela com os cadernos na mão e a mala ao ombro. Ele com a mochila às costas e o cabelo molhado. E a conversa surgiria, solta e livre, embalada pelas curvas e pelo trânsito. Sem silêncios incómodos quando não se sabe mais o que se há-de dizer. E quase todas as tardes, regressariam também no mesmo autocarro. Ela cansada e cheia de coisas para contar. Ele com fome e cheio de coisas para contar. E a conversa surgiria, mais calma, mais pausada, no meio de toda aquela gente irritada com o trânsito no regresso a casa. Sem silêncios incómodos quando tudo o que havia a dizer já foi dito e redito e dito de outra maneira. Sorte era que estas conversas, algum dia, pudessem ter a oportunidade de existir.

Sorte. Sorte era que as fugazes passagens um pelo outro se pudessem repetir mais vezes. Que não ficassem por um simples olhar. Ela com os seus olhos castanhos. Ele com os seus olhos azuis. Sorte era não haver quatro anos pelo meio mais os amigos dele (tão veteranos) e as amigas dela (tão caloiras). Sorte era poderem simplesmente cruzarem-se ao longo do dia e darem dois, três, quatro dedos de conversa até que se lembrassem que estavam atrasadíssimos para a aula.

Sorte era que os autocarros, os horários opostos, os amigos dele, as amigas dela e os quatro anos de diferença os deixassem, por fim, conhecerem-se. Ele e ela. Simplesmente conversar. Discutir filmes, músicas, livros, partilhar experiências, segredos mais ou menos bem guardados. Falar de tudo e de coisa nenhuma. Serem amigos. Fazerem parte da vida um do outro. Sorte era ele e ela não serem apenas duas pessoas que se encontram raramente no auttocarro.

E sorte era esta história não ser na primeira pessoa. Sorte era que algo acontecesse simplesmente. Acontecer. Ter azar pode não ser quando nos acontecem coisas más. Azar pode ser apenas o não acontecer. Pois sorte era eu não estar no meio de uma aula importante a pensar na (falta de) sorte e nos "se"s daquilo que fica sempre por acontecer...

sábado, 7 de março de 2009

Just imagine

"A arte não reproduz o que vemos. Ela faz-nos ver." (Paul Klee)

Ver como tudo muda, tudo se transforma sem querermos nada, sem fazermos nada, sem vermos nada. Só quando se levanta os olhos do bico do sapato é que se dá pela mudança de paisagem... Para, logo depois, os grãos de areia voltarem a escorregar de novo das mãos secas como o deserto enquanto os seus irmãos continuam a cair invarialmente no fundo da ampulheta. Uma nova paisagem. Artista anonimamente desconhecido (ou talvez não...). Que sejamos os artistas das nossas próprias paisagens! Ou, pelo menos, "just imagine"...


Ilana Yahav é uma das artistas mais conhecidas na arte de "sand animation". Utiliza apenas os seus dedos para desenhar com areia numa mesa de vidro. Este é apenas um dos seus trabalhos chamado de "Just imagine".

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um dia que parecia de Verão


Num dia que parecia de Verão. Pelo murmúrio leve das famílias e dos casais de namorados. Pela pedra quente onde estava deitada. Pelas ondas brandas da baixa-mar. Pelo cheiro a musgo e a mar. Pelas gaivotas a dançarem no céu azul.


Eis em mim absorto
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.

Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.

Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.

E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.

Fernando Pessoa

E, naquele momento, consegui. Mas momentos destes fogem-me como areia por entre os dedos... E um dia de Verão não põe fim ao Inverno de mim.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Flores

Tenho uma prima que é florista e houve um ano que tive que ir ajudá-la no dia de São Valentim. Antes da loja abrir já havia uma fila de 8 homens em frente à loja. Eram todos novos. Bem-vestidos. Perfumados. Alguns roíam as unhas. Outros ajeitavam a roupa. São os Ansiosos.
- Bom dia.
- Bom dia. O que vai…
- Eu queria um ramo de flores, rosas, umas 7 ou 8 não sei, vermelhas.
- Ok. Espere só um bocadinho.
- Mas eu queria também aqueles raminhos verdes, e aquela coisa…o embrulho… à volta, sabe? - Sim, sim não se preocupe.
- E queria também um daqueles cartõezinhos.
- Estão aí ao seu lado. Pode escolher um.
A minha prima faz o ramo. Mistura as rosas com os ramos. Põe o embrulho e os laços. Borrifa-as. Dá-lhes o jeitinho final.
-Olhe, desculpe! Afinal… não pode mudar as rosas? Eu acho que afinal ela gosta mais de rosas amarelas…

À noite vêm os mais velhos. Homens de fato e gravata que consultam o relógio vezes sem conta. Carro estacionado em 2ª fila. São os Desesperados.
- Boa n…
- Boa noite. Olhe, eu queria uma flor, se faz favor.

- E que flor vai querer? - Ah, pode ser uma rosa.
- E de que cor? Já não temos rosas vermelhas...
- Eh pah… Branca, rosa…Não sei escolha a menina.
- E quer que faça ramo? -Isso vai demorar muito?
- Não, não é rápido. - Então… sim, pode ser...
Eram 21h30 quando fechámos a loja. A minha prima comentava enquanto fechava a caixa que tinha vendido num só dia muito mais do costumava vender numa semana. Quando estávamos a acabar de varrer o chão bate à porta o antigo proprietário da loja, o senhor Joaquim. Tem quase 90 anos e apesar de já não trabalhar na loja há algum tempo, todos os dias, antes da loja fechar, passa por ali.
- Então, senhor Joaquim, vem buscar uma rosa para à dona Engracia?
- Não, não! Vim só ver se as meninas tinham conseguido dar hoje conta do recado. Apesar de flores não serem presente para se dar a ninguém num dia como este…
- Não?
- Claro que não, menina! Olhe, toda a minha vida vendi flores. O meu pai também era florista, sabe? Ainda não tinha 7 anos quando comecei a vender flores na rua. Acho que as flores são muito bonitas para enfeitar uma casa mas não para oferecer à nossa companheira…
- Então, mas porquê, senhor Joaquim?
- Porque murcham, menina... E o que é que tem de romântico oferecer a alguém, como prova do nosso amor, algo que é muito bonito ao início mas ao fim de uns poucos dias perde a cor, as pétalas caem uma a uma até que acaba por se desfazer e ter de se mandar para o lixo?


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Músicas contadoras de histórias 2

Putos a roubar maçãs


Ritmo monótono. Dedilham-se as cordas da guitarra.
Final de tarde. As janelas do prédio em frente reflectem um sol vermelho em rota descendente. Ele começa arrumar os papéis em cima da mesa. Agrafa-os uns aos outros, nuns quantos mete clips, faz pequenos montinhos que arruma em gavetas, pastas ou dossiers. Atira as aparas de borracha para o lixo. Arruma os lápis e canetas na gaveta. Gestos automáticos, mecânicos, entediantes. Finalmente, volta a sentar-se para desligar o computador mais o seu barulho monótono. Entretanto olha para as molduras ao lado do monitor. A filha e agora ex-mulher. Os pais em frente à sua velha casa na terra dos pomares.

Breve pausa na música. O suspense de uma velha memória...
A terra dos pomares. A terra da sua infância. Recomeça o guitarra. E entra o poderoso violoncelo. Cada nota são flashes de memórias julgadas perdidas há muito. Os pomares de maçãs a perder de vista. O barulho dos pardais nas árvores. Os muros de pedras redondas. O cheiro a terra molhada. Os amigos. Os finais de tarde vindos da escola pela estrada de terra. O jogo.

O violoncelo impõem-se. O ritmo cresce!
Ele quase que consegue sentir o esforço do seu corpo ao subir a árvore. E ouvir os gritos de regozijo cada vez que apanhava uma maçã e acenava com ela aos amigos, lá bem no alto, por entre os ramos da árvore. Depos descia com as maçãs nos bolsos. E o jogo recomeçava. Iam de árvore em árvore num corrida desenfreada enfiando as maçãs nos bolsos, no cinto, na mochila. Consegue quase a ouvir o som dos sapatos a bater na terra, o ladrar dos cães que não tardavam a aparecer. Os gritos enfurecidos dos donos atrás deles de pá ou foice na mão. Era tempo de saltar o muro e passar ao pomar seguinte.

O violoncelo e o violino cessam por fim. Agora, apenas a guitarra se faz ouvir.
E terminavam no fundo da estrada arranhados, ofegantes, sujos, estendendo-se na terra e sorrindo para o céu poente. Logo se endireitavam, ainda de respiração descontrolada, para contarem as maçãs roubadas por cada um e elegerem o justo vencedor. E, por fim, cansados e felizes, só se ouvia o trincar das maçãs suculentas e ainda mais deliciosas.

E voltam o violino e o vioncelo.

Todas notas se misturam no rodopio das velhas memórias e no vácuo do regresso à inevitável realidade.
O computador já se desligou. Os vidros do prédio da frente estão escuros em vez de vermelhos quando ele corre as persianas as persianas.

O violoncelo e o violino despedem-se. Últimas notas da guitarra.
Apaga as luzes. Fecha a porta do escritório atrás de si. A do tempo dos putos a roubar maçãs já se fechou há muito...