sábado, 18 de julho de 2009

Um ano

17/07/09
Athena. Deusa da sabedoria, do ofício, da inteligência e da guerra justa. O nome que escolhi para me libertar do meu. Falta de humildade, talvez. Um ponta de cobardia, também. E um desejo enorme de me afastar da influência dos outros. Ver apenas com os meus olhos e não os deles.


Há um ano...

A minha confusão do ser em palavras.


O meu Hobbes.
O meu lar mais profundo.


O meu mirante.

Foto de Maria Lázaro.

A minha liberdade.


Um ano de Vi(ver).

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Diferenciação

"Diferenciação: alterações de maturação estáveis que experimenta a estrutura e propriedades de uma célula devido aos seus organitos particulares e produção de elementos por parte da matriz celular com especialização de funções específicas por perda de outras funções, por repressão e expressão de determinados genes."

Após um mês de exames que, afinal, se vai prolongar até dia 28 chego a conclusão de que o que preciso para sobreviver aos próximos 4 anos, pelo menos, é de uma diferenciação: especialização de funções específicas por perda de outras funções.

Preciso de ser como eles e, por isso, menos eu. Preciso de não estar apenas no curso que quero. Preciso de ser a pessoa certa para este curso como eles, muitos, que até nem estão nele por que querem...

Eles que acordam todos os dias motivados para aprender. Eu que dependo das minhas súbitas mudanças de humor por causas indeterminadas.
Eles que decoram nomes, funções, constituintes, reagentes, corantes, acidentes ósseos, particularidades entre espécies, genes, enzimas, hormonas, modos de actuação,... Eu que me esqueço de tudo isso mas sou capaz de me lembrar de uma pessoa que não vejo desde primária e não me reconhece na rua.
Eles que conseguem passar uma viagem inteira de autocarro a falar de um trabalho. Eu que prefiro observar as pessoas.
Eles que nunca adormecem nas aulas. Eu que, depois dos 20 minutos iniciais, oscilo entre o cair no son(h)o ou ler um livro metido por entre o caderno.
Eles que olham para um cavalo e discutem, entusiasmados, sobre o tipo de pelagem e as suas particularidades sem ou com sede fixa. Eu que fico a fazer-lhe festas.
Eles que uma vez disseram que Rodrigo Leão devia ser algum cantor pimba brasileiro. Eu que acho as músicas dele de outro mundo.
Eles que não gostavam de Português e acharam Fernando Pessoa simplesmente "estranho e aborrecido".
Eles que estão a estudar, motivados sempre, neste momento. Eu que estou a escrever no meu blog.
Eles que vêm a diferenciação, clara e objectivamente, como uma parte importante da matéria de Embriologia e Biologia do Desenvolvimento. Eu que em vez de estudar deixo que a minha mente frustada e cansada se ponha a inventar estas coisas...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Hibernação de vida

8 exames. 30,5 créditos. 4 semanas.
Acordar, estudo, pequeno-almoço, estudo, almoço, estudo, lanche, estudo, jantar, estudo, dormir.
Chamo às próximas 4 semanas hibernação de vida. Parou a chuva, o sol brilha lá fora, as pessoas andam de manga curta na rua. Afinal, é quase Verão...
Mas não aqui dentro de casa, com os olhos postos há horas numa matéria que parece não ter fim, a fazer apelo a minha péssima memória para nomes que decore uma lista infindável deles e mais tudo o que significam e implicam. Para mim, com o ler, o reler, o sublinhar, o olhar para o relógio e o suspirar até podia ser um daqueles dias de Inverno escuros, chuvosos e tristes que eu não daria pela diferença...

O telemóvel toca. É um colega da faculdade. Leia-se possíveis informações úteis. Talvez uma dúvida importante que ainda não me tenha ocorrido, um "pormenor" importante que afinal de pormenor tem pouco, uma dica ouvida de alguém do ano seguinte, uma informação sobre o exame que o professor deixou escapar a não sei quem que depois disse ao amigo da amiga de A, que contou a B que decidiu partilhar com C que, pelos vistos, é o meu colega .

Nestas 4 semanas dá-se uma (re)catalogação das pessoas. A categoria daqueles que são fontes úteis. A categoria dos que só vêm baralhar tudo. A categoria dos que partilham informação dividida nas subcategorias daqueles que partilham com toda a gente, daqueles que só partilham com o seu grupinho, e, por fim, daqueles que simplesmente não partilham. Existe ainda a categoria daqueles a quem se fica a dever e daqueles que nos ficam a dever.

É isto estas 4 semanas. Pode parecer de loucos (é!). Pode parecer angustiante (é!). Pode ser horrível ver como tudo se resume a dicas e a informações uteis (é!). Mas depois de me habituar descobri que é tudo muito mais fácil, afinal de contas:

Existe um objectivo bem definido.
Há sempre tema de conversa com toda a gente embora ele seja sempre o mesmo.
Não existe tempo para pensar noutros problemas para além do exame seguinte.
Nem disponibilidade mental para desejar encontrar olhos azuis e boas conversas de autocarro.
E o cansaço abafa os sonhos e tudo aquilo que nunca chegou a acontecer.

Porque afinal, o que interessa nestas 4 semanas é apenas sobreviver o melhor possível...

domingo, 31 de maio de 2009

O erro da sra. astróloga

"Não espere por nada nem por ninguém na altura de realizar os seus sonhos. Terá de aprender a não depender dos outros." dizia a sra. astróloga Yolanda Qualquer-Coisa sobre o signo de Balança nas suas previsões diárias para um jornal diário gratuito qualquer daqueles que uso para fazer o sudoku à hora de almoço.

Ora, esta senhora está enganada. Muito enganada. Não sei como terá visto isto no movimento dos astros mas eles de certeza é que não se enganaram (se alguma razão têm...) Talvez o problema esteja apenas na interpretação...

"Não espere por ninguém na altura de realizar os seus sonhos." Sim. Certo. Só eu poderei realizar os meus sonhos. Só a mim eles fazem parte. "O sonho comanda a vida". Não os outros.

"Terá de aprender a não depender dos outros". Também concordo. Sim, dependo muito dos outros. Dependo de boas conversas no autocarro para que o dia seja bom. Dependo da boa disposição dos outros para contagiar a minha. Dependo de me sentir bem no meio dos outros. Depende de me identificar com os outros. Os outros. Sempre os outros.

Mas vamos imaginar que, um dia, eu consigo alcançar os meus sonhos. Tal como a senhora Yolanda disse: não esperando nem dependendo de ninguém.
Que, um dia, que vou fazer uma viagem pelo mundo só com uma mochila às costas. Que vou assistir a uma partida no Roland Garros. Que faço mergulho, para-quedismo e bungee jumping. Não esperei por niguém. E agora? Não faço essa viagem. Não vou a esse torneio. Não mergulho. Não voou. Não salto. Para mim, estas coisas não foram feitas para se fazerem sozinhas. E as histórias são para ser contadas, pelo menos, a dois.

Vamos imaginar que, um dia, consigo ir trabalhar para o estrangeiro na minha (ainda por descobrir) especialidade . Trabalho naquilo que gosto e naquilo que sou realmente boa. Ganho bem. Sou respeitada por isso. Por não depender de ninguém. E, depois de mais um dia de trabalho, volto para a minha vivenda com jardim num bairro calmo ao pé da cidade. Tenho o cão à minha espera e um sofá confortável com um grande gato a dormir em cima. Ponho a musica a tocar e danço sozinha. Depois do banho no jacuzzi faço a jantar apenas para um com o gato na sala vazia e o cão aos meus pés. Que vida é essa?

E, mesmo que não consiga nada disto, vamos imaginar que, um dia, simplesmente consigo comprar uma daquelas máquinas café da Nespresso caríssimas que sempre quis ter e exprimentar todos os sabores de café do mundo. Mas, às vezes, até o pior dos cafés sabe bem desde que se tenha uma boa companhia- É pena o inverso não ser igualmente verdadeiro...

Não sei se os astros se enganaram ou não. Ou foi apenas a sra. astróloga Yolanda Qualquer-Coisa na sua tentativa de transformar os seus movimentos e posições relativas em frases semi-filosóficas. Só sei que o sonho pode comandar a minha vida. Que poderei ter de abdicar de muita coisa e gente para os concretizar. Mas nos meus sonhos também nunca estou sozinha...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Brilho especial

Há falta de palavras minhas, encontro-me nas dos outros.

"Mas, como todos sabiam, as mulheres amadurecem muito mais rapidamente que os homens e Maria - embora não passasse noites em claro a pensar nos seus conflitos filosóficos - pelo menos uma coisa sabia: não possuía aquilo a que o pintor chamava "luz" e que ela interpretava como um 'brilho especial'. Era uma pessoa como todas as outras, sofria a sua solidão em silêncio, tentava justificar tudo o que fazia, fingia ser forte quando estava muito fraca, renunciara a qualquer paixão em nome de um trabalho perigoso, mas agora, já perto do fim, tinha planos para o futuro e arrependimentos do passado - e uma pessoa assim não tem nada de "brilho especial". Aquilo devia ser apenas uma maneira de a manter calada e feliz por estar ali, imóvel, fazendo o papel de idiota.
'Luz pessoal. Podia ter escolhido outra coisa, como 'o seu perfil é lindo'.
Como entra a luz numa casa? Se as janelas tiverem abertas. E como entra a luz numa pessoa?"
"Onze Minutos", Paulo Coelho

Foto de Helder Vasconcelos

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Desejos vãos




Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
Poema de Florbela Espanca

Mar. Árvore. Sol. Pedra. Tenho de escolher o que quero, pelo menos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Dia mau/ dia bom

20/04/09
6h30 O despertador toca. Ela adormece. Perde o 1º autocarro. Perde o 2º autocarro. Chega atrasada à aula de anatomia. Os cadáveres congelados arrefecem-lhe as mãos. Avaliação oral. Dos 22 músculos da aula desse dia, esquece-se do nome de 2. Chumbada. Aula de Histologia. Tem um colega, ao seu lado, que faz imensas perguntas ao professor. Pensa que gostava de ter, pelo menos, um quinto do seu entusiasmo. Aula de Embriologia. Mais 40 slides de matéria. Aula de Bioquimica II. Por incrivel que pareça consegue ser ainda mais dificil que a primeira. Volta a apensar que este é, de facto, o curso que sempre quis. Mas talvez não seja apenas a pessoa certa para ele…

13h Fila do almoço. Comentam sempre que é enorme… Almoço. Fala-se de um concerto para breve de uma colega, de uma exibiçao de capoeira no fim-de-semana passado de outro colega e do exame de código marcado para amanhã de outro. Ela ouve, não tem nada a acrecentar.

14h 1ª aula da tarde. Aos 20 minutos adormece. Acorda de cada vez que se sente a escorregar da cadeira. Ou quando um colega lhe dá um toque no braço e se ri. O professor olha para ela e franze a testa. 2ªa aula da tarde: Zootecnia Geral. É a cadeira que mais gosta. Mas os colegas nãem por isso Torna-se dificil ouvir a voz baixa do professor por entre o ruído das conversas.


16h Perde o autocarro dessa hora por pouco. Não valia a pena terem corrido. Fala-se dos 7 trabalhos para entregar no mês que vem. Suspira-se. Aparece o autocarro. Refila-se que vem sempre cheio. Volta a falar-se dos trabalhos. Um miudo faz birra. Uma senhora idosa descreve às outras duas todas as operações que já teve qua fazer. Agora fala-se mal dos professores de Anatomia. Mas até esse assunto se gasta. Silêncio até que ela diz o "até amanhã" do costume aos colegas e saí aliviada na paragem de autocarro.

16h50 Agora falta apanhar o 2º autocarro. A fila de espera já vai grande. Mas consegue arranjar lugar sentada. Trânsito. A bateria do mp3 vai-se. Resta-lhe a (horrível) música kizomba de um rapaz sentado atrás de si.

17h30 Chega a casa. Lancha. Estuda. Toma banho de água morna porque al mãe se esqueceu de encomendar o gás. Janta. Adormece no sofá a ver uma série. O irmão acorda-a dissendo que sala não é sitio para se dormir. Vai preparar as coisas para o dia seguinte. Vai para cama.

27/04/09
Hoje ela não adormeceu mas o 1º autocarro teve um furo. Voltou a chegar atrasada. Enervou-se na aula de anatomia e cortou um músculo que não devia. O professor não fez avaliação mas anotou a falha. O resto do dia foi basicamente igual ao da semana passada.
Mas, apesar de tudo isso, hoje foi para ela um bom dia. Bastou uns olhos azuis que raramente vê, um sorriso, um “olá” e uma boa conversa no autocarro. Porque estas “desgraças” todas podem ser muito engraçadas quando partilhadas com as pessoas certas. E sabe sempre bem saber das “desgraças” dos outros também. Ou simplesmente ter sempre assunto de conversa.

Afinal, não sou uma pessoa triste nem complicada. Para um dia ser bom basta-me apenas um sorriso, um “olá” e uma boa conversa...