
Vou apanhando, assim, no ar que cheira a cera uns pedacinhos da história de alguns que, muitas vezes, nem sei associar a quem pertencem. Limito a ficar ali com os meus pensamentos e as minhas observações embalada pela voz do professor que vai repetindo, irritado, as mesmas coisas cada vez que alguém chega atrasado e ofegante. E penso que toda aquela gente estranha sentada naquela sala de cadeiras fofas vai passar a fazer parte da minha vida. Agora todos eles me parecem exactamente iguais. Eu serei certamente mais uma para todos eles também. Mas talvez daqui a uns tempos possa diferenciá-los apenas pela maneira de andar, conhecer os seus sorrisos, as suas piadas, a sua maneira de estar e, com alguma sorte, a sua maneira de ser. Eles farão o mesmo comigo embora nem saiba o que quero ser para eles. (Quero ser eu própria. E o que é que isso é?)
Enfim, vou atribuir sentidos. Vou pintar todas aquelas pessoas com o feixe de cores da imagem! Vou organizar as cores desse feixe e pintá-las com o sentido que lhes vou aprender a dar com o tempo. Elas farão o mesmo comigo (que cores escolherão?). E, assim, daremos sentido e passaremos a fazer parte da vida uns dos outros. Passaremos a viver-nos porque para viver é preciso, então, pintar coisas e, principalmente, pessoas…