
“Cada vez que um amigo meu tem sucesso, uma pequena parte de mim morre”.
(Gore Vidal)
Esta é uma daquelas frases que penso que quase toda a gente já viu. E se estava acompanhado(a) por amigos na altura, a folhear distraidamente um daqueles livros de provérbios e ditados para passar o tempo, talvez se tenha rido e abanado que não com a cabeça para rapidamente passar para a página seguinte. É uma frase que nos deixa naturalmente desconfortáveis pois, no fundo, esquecendo, por um pouco, o moral e politicamente correcto, é o que acontece a, pelo menos, toda a gente uma vez na vida. Por várias razões… e talvez nenhuma em especial.
Uma dessas possíveis razões poderá ser porque uma parte desse sucesso também nos pertence. Ou devia-nos pertencer. Sendo amigos dessa pessoa certamente que a apoiámos na sua luta para alcançar o sucesso. Acreditámos no seu valor quando já nem o nosso próprio amigo acreditava. Elogiámos o seu progresso. Apontámos os seus erros. Sugerimos maneiras de os corrigir. No fundo, estivemos lá. Sempre. Mas isso é algo que não se quantifica. Que não se vê. Como tal, é algo facilmente esquecido. Daí que os verdadeiros amigos quase nunca vêem reconhecido o seu valor. Podemos até ficar contentes pelo sucesso do nosso amigo, mas, uma parte de nós, a parte ligada à amizade incondicional, de facto, morre. Pode restar a amizade claro, mas não a pura, a incondicional amizade como a que as crianças juram inocentemente manter para sempre com as suas melhores amigas no recreio da escola. Ou os colegas de turma no baile de finalistas.
Além disso, um amigo é sempre alguém com quem nos identificamos. Podemos até nem dar, por isso, mas a verdade é que um amigo é sempre alguém que tem algo em comum connosco. Seja a escola, seja o estilo de roupa, seja a equipa de futebol ou outra coisa qualquer. Portanto, se esse nosso amigo conseguiu alcançar o sucesso porque é que nós não conseguimos? E entre os parabéns e o tradicional “Estou muito feliz por ti, pá!” surgem na nossa cabeça esta e outras perguntas como: Onde será que errámos? O que será que ele(a) tem que nós não temos?
Uma última razão que encontro para a verdade desta frase é com base numa analogia. Toda a gente sabe que num conjunto de lâmpadas, se uma brilha mais, mesmo que apenas um pouco mais que as outras ofusca-as completamente. E uma das piores sensações que o Homem pode sentir penso ser o de ver o seu sucesso “ofuscado” pelo sucesso dos outros. Mesmo que esses outros sejam seus amigos.
Nós somos, de facto, bichos estranhos. Cruéis. E primeiro connosco mesmos, por isso, não é de estranhar que também o sejamos com os outros. E esta frase é um bom exemplo disso. É, pois, verdade que uma parte de nós pode morrer quando um amigo nosso tem sucesso e não podemos evitar isso. Resta-nos, então, esquecer essa parte que morre e voltar a felicitar o nosso amigo pelo seu sucesso, esperando, no entanto, secretamente que, um dia, também uma parte dele morra por nossa causa…